AMOR PLATÔNICO DE ESQUINA.

esquina1

O Bar estava fechando. Ele chegou com passos leves, feito um leopardo silencioso e faminto, de tal modo que, quase soltei um grito de susto, quando me deparei com sua presença repentina. Seu cabelo preto pendia na testa de um jeito casualmente desajustado, e sua camisa branca trazia um amassado característico de mais um exaustivo dia de trabalho. Entretanto, seu olhar era tão afetuoso como quem acabava de acordar de um sonho aprazível e sua necessidade de ser acolhido era mais do que evidente. Ele disse: “oi”, eu disse: “bem-vindo”.

 Apesar de tanto tempo, eu jamais o havia esquecido. Há tempos ele tinha sumido e, repentinamente, estava ali, cada vez mais, se aproximando. Segurando sua pasta executiva de couro, de um jeito tímido e quase reservado, ele me perguntou se poderia sentar-se em uma cadeira vazia na minha frente. Ah, dentre tantas cadeiras vazias, ele quis sentar, estrategicamente, à frente de sua humilde serviçal… Assenti com a cabeça e o vi lançar pra mim um sorriso terno de contentamento. Carente, qualquer companhia lhe servia, até mesmo a minha. Faltava apenas meia hora para o Bar fechar as portas. Ele me pediu meia hora de felicidade pura e destilada. Claro, eu o atendi da maneira mais eficiente.

Ele quis a bebida mais forte do Menu e eu lhe ofereci uma dose de Amor Platônico. Vi os seus olhos hesitarem por uns instantes, mas ele logo se convenceu em provar daquele sabor peculiar e invasivo. Enquanto eu limpava o balcão, vi num sorriso o quanto ele gostou daquilo. Ele pediu mais. O servi novamente, e disfarçadamente, olhei para o relógio. Já passava do horário de ir embora, eu deveria estar em casa. Contudo, por algum motivo, não liguei a mínima por fazer hora extra naquela noite, e certamente, seria capaz de servi-lo de novo e de novo, só para fazê-lo desfrutar daquele reencontro de esquina. E assim, eu fiz. O anoitecer lá fora, fazia com que a luz intensa dos postes ganhasse destaque em meio à penumbra do céu das oito. Lá dentro, só nós três: eu, ele e o Amor Platônico. Nossas vidas entregues àquele triângulo amoroso descabido. Metade da garrafa já havia sido consumida por nossos corações sedentos.

 De um jeito estranhamente confortável, iniciamos conversas que perpassaram sobre as diversas instâncias da nossa intimidade. Estranhamente, falamos, mesmo que de forma pouco profunda, sobre nossos desejos e rotinas. E então, após algumas dezenas de doses de um amor banal e impossível, ele me ofereceu o último gole… Olhando para os lados, fugindo de mim mesma, virei o copo. Minha cabeça rodou e nessa noite em que a formalidade se esvaiu quase que por completo, eu desejei internamente a possibilidade de nos tornarmos mais próximos dali em diante. Desejei errado. Fraca como sou para Amores Platônicos, me deixei levar demais, me embriaguei demais, amei demais, e, enquanto ele se mantinha firme, meu olhar pegava fogo e incendiava os meus verdadeiros anseios e planos.

 “Até logo”, disse ele, ao me dar um abraço frio. Nunca pude chamá-lo pelo nome, nunca tive essa liberdade. No fim da noite, éramos, tão somente, dois estranhos. Eu era apenas uma bêbeda tristonha, envergonhada por mais um vexame no Bar dos Desiludidos. Percebi, enfim, no raiar de um novo dia, que não passamos de duas pessoas que afogaram as mágoas de suas rotinas num amor passageiro, egoísta. Enquanto, há poucos instantes, ríamos como dois adolescentes, hoje, meses após sua partida, restou em mim a sensação de nunca, realmente nunca tê-lo conhecido. Hoje, como todas as outras noites, fechei a conta, limpei o balcão, tranquei as portas. Devolvi para a estante a garrafa daquele Amor Vazio, maldito vício que se encontra nos bares de qualquer esquina da vida. Amor platônico, amor impossível…

Aceita uma dose?

Biocamila

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