De nós nada restou

alone1

Leia ao som de Don’t wait – Mapei ♪

Por mais que a gente insista em guardar algumas memórias, o tempo acaba arrastando tudo como num rio. Nada fica, tudo flui como a água, tudo é levado pela correnteza. Exceto a saudade, essa permanece, por mais que as águas sejam fortes. Todo o resto se vai. Cada lembrança, cada momento, cada passeio, cada toque. Comigo foi assim, o tempo passou e eu sofri uma longa e silenciosa dor, esperando que esse senhor do tempo fosse piedoso e me curasse levando todo o sofrimento com toda a dor da sua ausência embora pra sempre. Ele não curou, mas levou com ele as melhores partes de nossa história e de nós, nada restou.

Eu me esqueci da música que tocava na primeira vez que te vi, não me lembro mais do nosso primeiro beijo e já esqueci o gosto da tequila que tomei da sua boca, o seu perfume também já não está em nenhuma das minhas roupas. Não me lembro mais o formato exato daquela sua pinta da barriga e da sua risada, que sempre fazia o meu coração vibrar, já me esqueci do som. Não me lembro mais de como é acordar ao seu lado de manhã. Não me lembro mais do formato das suas mãos e não sei mais como era o encaixe da sua cabeça no meu ombro durante um filme de madrugada ou o seu abraço apertado depois de cada sessão de cinema. Nem faz tanto tempo e de nós nada restou. Não lembro mais das nossas primeiras conversas, só me lembro que eram tão lindas no começo que nem parecia que no fim eu sofreria tanto. Também não me lembro da nossa última briga, só me lembro que doeu tanto ouvir aquelas frases. Cada palavra do fim, dita por você no calor da emoção, cortavam minha alma como milhões de navalhas. Não me lembro da última vez que te vi, nem da última vez em que eu te pedi pra ficar. Só me lembro da dor da despedida. Do corte profundo no coração. Me lembro de te implorar pra você ficar, mas também me lembro que você não ficou, apenas me deu as costas e seguiu no seu caminho, que certamente seria mais fácil sem o peso da minha presença. Talvez você nunca tenha estado ali de verdade e que tudo tenha sido apenas fruto da minha imaginação tão fértil. Talvez eu ainda esteja sentada naquele banco imaginando uma história que nunca aconteceu. Esperando que um amor inventado como aquele que vivemos tenha sido real, quando na verdade existiu apenas pra mim.

De nós nada restou… nem o gosto da tequila, nem as cartas, nem os versos, nem os beijos, nem os sonhos, nem o Daikiri e nem o seu café com chantilly. De nós, nada restou e eu ainda estou encostada naquela parede de vidro na entrada do metrô da linha amarela. De nós, nada restou e eu ainda observo os ponteiros do relógio que não mais se movimentam. De nós nada restou e eu ainda estou sentada em uma sala vazia de cinema esperando os créditos. De nós nada restou e eu ainda estou presa em um pesadelo sem fim. De nós, nada restou. Nem a tristeza de partir sem saber quando seria a próxima vez que iria te ver, muito menos a alegria de te encontrar de novo. De nós nada restou, nem a ansiedade de chegar e de saber que no fim daquelas horas intermináveis de estrada eu estaria no seu abraço. De nós, nada restou. Somos apenas duas pessoas desconhecidas que se perderam no tempo e na distância. Apenas o silêncio, apenas duas pessoas desconhecidas como aquelas que olhávamos no reflexo do espelho da sua varanda.

Talvez minha vida tenha mesmo estacionado naquele exato momento e eu ainda esteja sentada em um banco sozinha no meio da noite em uma cidade desconhecida do interior, esperando você chegar com aquele sorriso aberto dizendo que ia ficar tudo certo e que você jamais me abandonaria ali… A verdade é que você abandonou, se foi sem se preocupar com o que estava deixando pra trás e eu ainda me sinto como naquele dia…sozinha, com medo, porém sem nenhuma esperança, pois sei que dessa vez, você não vai chegar. Nunca mais. É engraçado como o tempo funciona, por mais que a gente insista em guardar algumas memórias, ele leva tudo de nós, acabamos com aquela mesma sensação de quando um filme bom chega ao final, por isso acho que ainda estou presa em uma sessão vazia esperando os créditos. De nós nada restou e de mim só sobrou o amor.

biome

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