Resenha: O Silêncio das Montanhas

montanha

Se você está em busca de uma leitura mais reflexiva e que te faça repensar nos seus valores, Khaled Hosseni é o autor da vez. Com certeza você já deve ter escutado falar no famoso “O Caçador de Pipas”, que de longe, foi o livro que mais me emocionou até agora. Mas hoje venho falar de um outro livro igualmente genial, chamado “O Silêncio das Montanhas”. Mas atenção: se você é apegado ou tem problemas com a sua família, esse livro tem uma forte chance de ser um verdadeiro choque, pois trata exatamente dessas relações. Portanto leia sabendo que sensações como ódio, frustração e principalmente indignação, serão constantes!

Não adianta apresentar os personagens. São muitas histórias e são todas entrelaçadas. Começa com uma fábula maravilhosa sobre uma lenda da mitologia persa, em que o ser místico Dev é motivo de discórdia em uma pequena vila pouco favorecida, uma vez que ele só aparece nestes locais para roubar uma criança e nunca mais a trazer de volta. Por obra infeliz do Destino, a pessoa mais trabalhadora e correta do lugar vê o seu filho caçula sendo o escolhido para a “doação” e passa os anos seguintes em profunda depressão, se culpando e querendo encontrar um meio de reparar seus erros. Com isso, ele embarca em uma jornada para reaver seu filho preferido e, para o espanto do próprio Dev, consegue chegar até seu lar e reclamar o menino de volta. É aí que entra a grande questão da trama. O menino, que é mostrado através de uma espécie de espelho, está em grande felicidade e boa vida, e o pai já lhe foi tirado da mente pelo monstro mítico. Ele tem a opção de trazer o garoto de volta para a vida de miséria que levam na vila, ou deixá-lo para sempre em uma condição melhor. O amor e o próprio orgulho estão em jogo, mas o pai, obstinado, prefere a alegria do filho e parte de volta para a casa. É claro que o Dev lhe dá uma poção do esquecimento, como um presente para o sofrimento daquele homem tão altruísta.
Vocês já devem imaginar que se o livro começa assim, as histórias que se desenrolam são parecidas em seu roteiro. E não se enganam! Um pai de família pobre começa seu destino pelas areias do deserto até chegar em Cabul, com seus dois filhos pequenos. O que ele vai fazer é explicado mais para frente, mas somos apresentados à Abdullah e sua irmã Pari, que são órfãos de mãe e que tem uma relação de muito amor e proximidade. Abdullah é praticamente um pai para a pequena Pari, e assim que somos apresentados à sua relação, vemos que ela é rapidamente desfeita, em um piscar de olhos. O tio, Nabi, é quem tem a chave da problemática separação. Ele trabalha em uma rica casa em Cabul, onde os donos têm uma relação um pouco estranha. A esposa, Nali, era uma mistura irreverente com a Grécia e o Afeganistão e não tinha nada de convencional. Conforme a trama vai se desenrolando, percebemos que ela é a típica mulher que quer encontrar algo para suprir o vazio que sente, mas nunca encontra. Nem nas bebidas, nas festas e principalmente, no casamento. Em um estranho e infeliz ato de amor, Nabi oferece um possível resquício de felicidade e oferece sua sobrinha como “uma possível filha” para a mulher.
Ela aceita, o seu cunhado recebe dinheiro para sair da miséria e ele acha que tem uma possível forma de atrair a atenção da inalcançável Nila. Nesse ponto, fiquei realmente muito brava pelo fato de que o Nabi usou a sobrinha para ter chance com a patroa, mas de certa forma, entendi o que ele estava pensando porque quando nós amamos alguém, não medimos esforços não é? Ele não quis separar os irmãos por má fé. E ele não conhecia a relação de Abdullah com a Pari. Mas enfim, o que acontece depois é ainda mais revoltante, pois temos uma série de acontecimentos que distanciam ainda mais os dois irmãos, que tecnicamente são o ponto principal da história. Nila vai com Pari para Paris e Nabi fica para cuidar de Suleiman (o patrão, que sofre um derrame e precisa de cuidados) e aí vemos outro ponto de sacrifício: Nabi desiste da própria vida para ficar com o patrão, como seu cuidador. Talvez uma tentativa de corrigir um erro do passado? Um jeito nada convencional de se castigar pelo o que fez à própria família? Fiquei pensando nisso durante a leitura. Nali e Pari são então deixadas para depois na história.Somos apresentados à Markos, um doutor grego que está morando agora na casa de Suleiman, com Nabi como o herdeiro da ex-mansão, destruída pelas inúmeras guerras que aconteceram no país. Markos fica sabendo da história toda e por meio de uma carta, fica com a responsabilidade de dizer à Pari sua verdadeira origem. Markos também tem uma história de sacrifício com a família, e no seu trabalho, busca, assim como Nabi, o perdão pelos atos feitos.
Parando um pouco a narrativa, peço que entendam que a história se origina de uma separação e depois vemos personagens que tem culpa e personagens que fizeram sacrifícios. Hosseni trabalha sempre com estes dois polos. Markos, Nali, Nabi e o pai de Abdullah têm seus pecados e tentam corrigir à todo o custo, pois também se sacrificaram por eles. Os outros personagens envolvidos se vêem sempre em uma trama de doação e depois uma tentativa de tentar entender o que está acontecendo. Pari enfim descobre quem é seu irmão, após uma vida conturbada pelos desejos de uma mãe carente e que gostava de atenção. O final do livro é extremamente surpreendente e claro, revelador. O enredo inteiro busca perguntar o que faríamos, na posição de cada um dos envolvidos. Você sacrificaria seu destino para apagar os erros? Ou faria o que tivesse vontade para conseguir o que queria? Até onde nossas escolhas interferem na vida dos outros?Em uma rede de doações, Hosseni retrata países e seis décadas de pessoas que têm uma única coisa em comum: a destruição do amor de Abdullah por Pari.
Edição: 1
Editora: Globo Livros
ISBN: 9788525054081
Ano: 2013
Páginas: 352
Tradutor: Claudio Carina
biotalyta
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