Cada um em seu lugar

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Leia ao som de Paralamas do Sucesso

Não tinha a mínima ideia do que estava fazendo ali, talvez aquelas duas ou três taças de vinho tenham tirado toda a minha noção. Ainda estava meio sem chão quando senti segurarem firme a minha mão, era você. Um olá, um olhar e um beijo. Num estalo, já estava de volta a terra e sabia exatamente o que estava fazendo longe de tudo que conhecia. Naquele momento, você era o meu lugar, mesmo que só por uma noite. Meu porto seguro para fugir da loucura de mais uma noite perdida, numa dessas baladas regadas a vodca, minissaias e conversas vazias.  Se for pra perder uma noite… Que ao menos fosse contigo para fazer valer à pena.  A única certeza era que não tínhamos certeza de nada, e mesmo que tudo parecesse tão vago, tão errado e fora do lugar, nada parecia tão certo quanto estar ali. Eu era pura sede e você era o último gole que eu precisava desesperadamente para me saciar. Embriagados ou não, seu gosto, seu cheiro e seu toque eram tudo o que eu queria e tudo o que precisava naquele momento. Você seria o meu vício, a minha loucura e a minha cura. Como aquela dose que diferencia o remédio do veneno.

Desejava por um fim naquela vontade que me acompanhava desde o dia em que te vi pela primeira vez, com aquele olhar doce que me hipnotizou. Eu e essa minha eterna mania de inventar amores, te pintei na minha mente com tantos tons e tantas cores quantas poderia imaginar com a minha aquarela encantada. Usei tinta guache, daquelas que saem na água para poder dar lugar à outra arte feita pela minha própria vontade quando assim julgar necessário, minhas vontades são tantas que mudam conforme as estações e o meu humor. Quis você desesperadamente para mim, mas você não é daquele tipo que pertence a alguém, pertence somente a si e ao mundo. Alma leve, liberta de qualquer amarra da vida. Não éramos os mesmos daquele primeiro encontro e, mesmo completamente diferentes, ainda esperava algum resquício daquela noite onde o amor me pareceu possível. Era o que eu imaginava afinal, a noção do real passa a cem metros de distância quando a paixão insiste em cegar os meus olhos.

Depois de algumas horas, você se despiu de todos os teus disfarces e se mostrou para mim, com todos os seus casos mais quentes dos quais se vangloriava, só para tentar encontrar uma pontinha de ciúmes para alimentar o seu ego. O seu cigarro não me incomodava mais. Nada disso me afetava, mas a sua insistência em construir uma barreira que me manteria a uma distancia, segura o bastante do seu coração,  isso sim parecia surtir algum efeito sobre mim. O fato é que todas as suas histórias, inventadas ou não, te manteriam a salvo das minhas loucuras e você sabia disso, do mesmo modo como sabia que te queria mais que tudo no mundo. E eu só pensava no aconchego que impediria os pesadelos de chegarem até mim, que eles fiquem lá fora e congelem no frio, pois aqui dentro só nós cabemos em meu sonho dourado, onde tudo parece possível. Naquele instante, meu sonho era bem modesto, desejava apenas que continuasse com os seus braços ao meu redor, e seu corpo bem perto do meu durante uma noite em que todas as minhas necessidades se resumiam a cada respiração sua.

Garanto que pela manhã irei embora, Não deixarei nada de mim, além do meu perfume naquela camiseta velha emprestada, onde meu cheiro se misturava ao seu e alguns fios de cabelo espalhados para te lembrar de que já fui um de seus doces acasos em meio a tantos outros casos e que um dia, quem sabe, também serei parte de uma das suas histórias de amores inventados contadas em outra madrugada qualquer para alguma desavisada apaixonada. Comigo levarei aquele olhar que afasta e pede colo ao mesmo tempo, combinando perfeitamente com a sua a sua voz doce e rouca que invade, inunda e penetra fundo no coração, por mais frio que ele possa parecer.  São memórias, sensações que me pertencem e tudo que quero é que elas continuem vivas dentro de mim, na minha mente.  Quero mais é reviver você quantas vezes eu puder, mas por enquanto, permaneço nesse transe em meio sonho e meio realidade onde te tenho e não te tenho ao mesmo tempo. Tudo o que sei é que essa vontade vai passar antes mesmo que o desejo volte a corroer nossa mente. Por fim, quando as palavras não saírem mais da minha boca, quando eu me perder em algum pensamento bobo de saudade, quando eu não souber mais o que falar, tudo poderá ser resumido naquele último olhar de adeus onde deixei um pedacinho meu  contigo. Cada um em seu lugar.

biome

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