Já que a dor não vai parar

“Quando você ficar triste, suba no ponto mais alto que alcançar e olhe. Olhe a vastidão do horizonte, as estrelas, o universo infinito… Veja como o mundo é muito maior que o seu problema.” – Ele disse a ela, segurando as suas mãos e também as suas lágrimas. – “Eu fiz isso e olha como estou sorrindo agora.” – E ele sorriu. Aquele sorriso largo que a desarmava. Aquele sorriso que disfarçava a dor.

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Leia ao som de Christina Perri ft. Jazon Mraz – Distance

Ela se recordava desse instante com frequência. – Faz quantos anos isso? – Mas foi necessário transcorrer um bom tempo, até que sua consciência reagisse e guiasse seus pés a caminhar para um local alto; e olhar ao redor. Uma madrugada de insônia, já tão irritantemente comum a ela, e a noite que seguia quente, com um vento elemento surpresa, tocando em pausas o seu corpo, um vento forte, desses que refrescam a alma. Ela não saberia afirmar se era uma típica noite de verão. O que há de típico nas estações do ano numa cidade que combina as quatro em um único dia? As estrelas cobriam o céu, bonitas, em uma quantidade possível de serem contempladas para quem mora na vida urbana. Ao longe, mas nem tanto, luzes e pessoas.

Ela ficou ali, como um gato de rua escondido nas sombras, sensação essa que a fez achar graça da situação aparentemente tola, percorrendo a distância alcançada pelos olhos, encarando indiretamente o movimento de estranhos. Reparou em gestos, companhias e solidão. No fundo todos parecem solitários. E o que ela viu: gente alegre e gente triste, alguém discutindo e outros se abraçando. Tinha gente apressada e tinha gente distraída – Os opostos, eles estão em todos os lugares. – E realmente estavam, desde os dramas gentis até as intencionalidades mais mesquinhas.

“Mas ele… ” Ele não tinha nada a ver com aquilo. Ele não teria nada a ver com mais nada a partir de agora.

– Isso está errado. Eu devia observar a mim e não aos outros. – E ela então, se sentiu parte de um todo. Era isso, tão somente isso e só. Sua estória, trágica e dolorosamente terminada, fazia parte de um ciclo maior. Um ciclo que explicava todas aquelas vidas com estórias mais e menos ricas que a dela. Explicava também o futuro, que faria surgir desconhecidos e levaria alguns conhecidos embora. – Quantos finais existem para uma história com vários personagens? – As pessoas que ocupariam seu lugar agora vago no coração dele que também estava machucado. As pessoas que aos poucos transformariam toda aquela emoção dentro dela em esporádicas lembranças distantes. Uma gente ainda estranha, mas prevista, de fato; era o inevitável, era o natural. A vida não para nem pra gente viver.

A manhã chegou e o cansaço veio junto. – Quantas vidas duram uma noite? – Ainda anestesiada, mais daquilo que se tornaria o seu passado recente do que de sono, colocou seus pés no chão. Foi quando a curiosidade de espiar mais de perto, essa tão “aconselhada” nova vida, despertou. Com todas essas “predestinadas” pessoas interessantes, todos tão estranhos… “Veja como o mundo é muito maior que o seu problema.”

Nunca existiu um guia com orientações exatas de como ela deveria ser agora, ou para aonde deveria ir. Em meio a tantas opções variadas ela fez uma escolha simples: foi para rua, entrou no bar e pediu um café. Enquanto aguardava, acendeu um cigarro e foi checar as notícias no jornal. Por um breve momento, enfim, ela observou a si mesma. E ela sorriu aquele sorriso que disfarça a dor. Sua única certeza: Café, notícias e cigarros, porque a dor não vai parar, nem eu.

kenirabio

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